segunda-feira, 16 de novembro de 2009

República Popular da China

REPÚBLICA POPULAR DA CHINA

A nossa viagem pela República Popular da China...

Estudámos o texto - Li Na e o Imperador

Há muito, muito tempo, na longínqua China, vivia uma mulher idosa num pequeno barco ancorado no Rio Amarelo. Chamava-se Li Na e era calígrafa.
Li Na tinha trabalhado toda a vida para alcançar a perfeição na sua arte. Muitas pessoas sabem escrever, mas só um artista consegue exprimir a verdade através de alguns traços desenhados numa folha.
Por essa altura, vivia na capital da China um imperador. Habitava um imenso palácio, cuja entrada estava proibida às pessoas comuns. Era muito rico, muito poderoso e cruel. Até mesmo a mulher e os filhos tinham medo dele.
Em contrapartida, toda a gente gostava da velha calígrafa. Vinham de toda a parte admirar as suas obras de arte.
Desenha o signo do amor! Pediam-lhe. Ou então: — Queríamos oferecer à nossa mãe um ideograma que lhe devolva a alegria.
Li Na molhava o seu pincel na tinta preta e, com gestos elegantes, traçava sobre o papel o ideograma do amor ou o da felicidade. E todos regressavam a casa, felizes e com uma sensação de plenitude.
Felicidade, alegria, amor, amizade, perdão: Li Na experimentara todos estes sentimentos e podia, assim, exprimi-los através de um ideograma. Mas, às vezes, eram precisos dias ou semanas para que a velha calígrafa pudesse alcançar o sentido profundo de um signo. Para traduzir a verdade de uma flor, fora preciso que Li Na se transformasse numa flor. Tinha tido de sentir o que sente uma flor quando o orvalho vem pousar sobre as suas folhas, ou quando a corola se abre lentamente. E também precisara de sentir o que a flor sente quando murcha e perde as pétalas. Pois Li Na exercia a sua arte com mestria.
A velha calígrafa tinha uma aluna, San Li, que vivia com ela no barco. San Li já conhecia a folha de papel adequada a cada ideograma. Também sabia preparar a tinta e tinha tido as primeiras aulas de caligrafia.
Certa manhã, uma grande agitação veio perturbar as margens do Rio Amarelo. O Imperador aproximava-se do barco da velha calígrafa. Cem guerreiros precediam o seu palanque incrustado de ouro, cem guerreiros seguiam-no e cem guerreiros protegiam os seus flancos.
O Imperador ordenou que parassem diante do barco de Li Na. Um criado chamou-a:
— O Imperador ordena que lhe traces um ideograma. Nele deves exprimir a grandeza do seu império, a sua riqueza infinita e o seu poder inabalável!
Li Na empurrou a porta vacilante do seu barco e saiu. San Li, escondida atrás da porta, tentava avistar o Imperador. Mas as cortinas do palanque, tecidas em fio de prata, protegiam-no dos olhares. A sua voz era forte e sonora.
— De quanto tempo vais precisar? — Perguntou num tom imperioso que fez tremer San Li.
— O tempo necessário para compreender a natureza do vosso poder! — Respondeu, num tom firme, a velha calígrafa.
San Li admirou o sangue frio da sua professora.
— Um criado virá buscar a caligrafia dentro de uma semana.
O Imperador bateu três vezes com o bastão da sua bengala na parede do palanque e partiu.
Cheios de medo, os habitantes da aldeia tinham-se escondido nas suas casas ou nos seus barcos. O Imperador raramente saía do palácio, e raros eram os que o tinham visto com os seus próprios olhos. Como resplandecia o palanque! Como pareciam invencíveis os guerreiros! Seguros do seu poder, ostentavam as armas, e o chão tremia devido ao peso dos seus passos.
Depois da visita do Imperador, a velha calígrafa tinha mergulhado num profundo silêncio. A ninguém dirigia a palavra, nem mesmo a San Li. Reflectia, sentada na ponte do barco. Como poderia ela medir a grandeza do império, se nunca tinha entrado no palácio imperial? Como poderia imaginar a imensidão das riquezas, se nada possuía? Como poderia compreender o poder, se nunca tinha mandado em ninguém?
Quando o sol se pôs sobre o Rio Amarelo, Li Na continuava sentada no mesmo sítio. Perdida nos seus pensamentos, fixava o rio. Não reagiu quando San Li lhe trouxe uma taça de arroz e um pouco de chá perfumado. Tinha adormecido e a lua fazia brilhar reflexos de prata nos seus cabelos.
Passou-se uma semana. Um criado do palácio veio buscar a caligrafia. Desolada, a velha abanou a cabeça:
— Lamento, mas não posso corresponder ao pedido do Imperador. Nunca entrei no palácio imperial, nada sei das cerimónias da corte. Império e poder são palavras que me são estranhas. Será que me podes trazer um objecto do palácio? Qualquer coisa em que o Imperador toque todos os dias.
O criado prometeu fazê-lo. Uma semana mais tarde, trouxe-lhe um tapete sumptuoso e uma taça em ouro. Como Li Na não estava visível, entregou-os à aluna. San Li recebeu os objectos, a tremer.
— Entrega-os à tua professora! — Ordenou o criado do Imperador. — Mas ai de ti se os sujares ou estragares. O Imperador mandava-vos às duas para a prisão!
Incapaz de proferir palavra, San Li abanou a cabeça.
— Volto dentro de uma semana! A caligrafia tem de estar pronta!
Passou-se uma semana e o criado voltou.
— Não consigo traduzir para o papel o poder do Imperador — disse a velha numa voz trémula. — Traz-me uma espada ou outra arma qualquer com a qual o Imperador exerça o poder sobre os seus inimigos.
— Verei o que posso fazer! — Respondeu, o criado e afastou-se a cavalo.
Alguns dias mais tarde, trouxe uma espada pesada. Li Na estava sentada, imóvel e silenciosa. San Li cortava folhas de papel. Não havia vestígios de qualquer caligrafia, nem sequer de um esboço.
— De quanto tempo precisas ainda? — Perguntou o criado.
Uma vez que a velha não respondia, dirigiu-se à aluna:
— Quando estará pronta a caligrafia? O Imperador está impaciente.
San Li encolheu os ombros.
— Não sei — disse timidamente.
O criado deixou passar três meses até voltar de novo à margem do Rio Amarelo. Desta vez a calígrafa entregaria o trabalho, pensava ele. Mas estava enganado.
— Li Na deu ordens para que não a perturbassem sob pretexto algum — anunciou-lhe a aluna. — Volta dentro de um mês e levarás a caligrafia do Imperador.
O homem ficou apavorado. Quando o Imperador ouvisse dizer que a caligrafia não estava pronta, culpá-lo-ia, decerto.
— Porque demora tanto tempo? — Perguntou à rapariga.
— Li Na tem de compreender primeiro o poder do Imperador, antes de pegar no pincel.
San Li baixou os olhos.
— A encomenda do Imperador exige algo de completamente diferente daquilo que a minha professora pintou até agora — disse em voz baixa.
O criado abanou a cabeça, mostrando que compreendia. Mas será que o Imperador compreenderia? Mas o Imperador não compreendeu. Quando viu o criado voltar de mãos vazias, meteu-o na prisão. Como ousavam desafiar as suas ordens? Iria ele mesmo falar com a calígrafa e buscar o que lhe pertencia.
Vestido de forma magnífica, pôs-se a caminho com a sua comitiva. Quando viram os soldados aproximarem-se do rio, os habitantes da aldeia meteram-se nas suas embarcações. San Li escondeu-se, aterrorizada, na cozinha, quando o palanque do Imperador parou diante do barco de Li Na.
Acompanhado por quatro guardas, o Imperador entrou no quarto da calígrafa.
— Onde está a caligrafia que te mandei pintar?
Li Na aproximou-se. Tinha na mão um grande pincel, do qual escorria ainda tinta. Diante dela estava um rolo de papel. Sem proferir palavra, sem olhar para o Imperador, inclinou-se e, com alguns gestos precisos, traçou no papel o signo do poder.
Aterrado, o Imperador recuou. Os guardas desembainharam as espadas para o proteger. O signo do poder era violento e cruel, ameaçador e hostil, duro e gelado. Dir-se-ia que dominava o quarto todo.
Os guardas recuaram, a tremer. O Imperador empalideceu, mas esforçou-se por mostrar que não estava impressionado.
— Porque me fizeste esperar tantos meses se conseguiste fazer a caligrafia em tão pouco tempo? — Perguntou, enfurecido, a Li Na.
— Precisei deste tempo para compreender o vosso poder — respondeu a velha calígrafa, numa voz doce mas firme.
Arrumou o pincel e olhou o Imperador nos olhos. Depois pegou no seu selo e imprimiu o no papel de arroz, ao lado do trabalho.
Passaram-se vários minutos num silêncio absoluto. A tinta secou. Li Na fez sinal a dois guardas para pegarem no rolo de papel. Sem sequer esperarem pela autorização do Imperador, fizeram o que a calígrafa lhes ordenara. O Imperador compreendeu, então, que ela tinha captado a natureza do seu poder.
Apressou-se a enrolar o papel e levou-o para o palácio. Uma vez lá chegado, retirou-se para os seus aposentos privados e deu ordens para que ninguém o perturbasse. Nem mesmo a sua família ou os seus ministros.
Desenrolou no chão a caligrafia de Li Na e pôs-se a contemplá-la. Sentiu um frio imenso percorrer-lhe o corpo. A sua garganta parecia ter sido estrangulada. Era isso o frio glacial do medo. O punho de aço do pavor. O gosto amargo da crueldade. O poder da cupidez e da violência.
Reinava no palácio um silêncio de morte. Após uma longa espera, o primeiro guarda do Imperador aproximou-se, hesitante, da porta do quarto do seu senhor.
— Vossa Majestade não se sente bem? — Perguntou, timidamente. Como não ouvisse resposta, abriu a porta, com prudência. O Imperador tinha os olhos cravados no chão, onde a caligrafia de Li Na se encontrava desenrolada. E chorava. O Imperador da China chorava! Sem soluços, sem gemidos. Nenhum som saía dos seus lábios. As lágrimas corriam silenciosas pelo seu rosto.
— É isto o poder do Imperador? Angústia e medo? Serei assim tão cruel? — Murmurava.
Apercebeu-se da presença do guarda. Este, com um movimento lento da cabeça, assentiu:
— Sim, Vossa Majestade é cruel.
Falara num tom firme, com os olhos postos no Imperador. Este desviou os olhos da caligrafia e fixou o criado, estupefacto. Abanou o punho, ameaçador. A tremer de cólera, abriu a boca. Contudo, baixou o braço e, sem proferir palavra, começou a chorar.
No barco ancorado no Rio Amarelo, a velha calígrafa arrumava o seu material. Papel e pincel, pedra de tinta e selo, tinham voltado ao seu lugar. Para terminar, Li Na estendeu o tapete do Imperador no chão e colocou a taça de ouro numa prateleira. Num canto pôs a espada incrustada de pedras preciosas. Sorria. Nessa manhã, o criado do palácio tinha voltado.
— O Imperador dá-te estes objectos como paga pelo teu trabalho — explicou-lhe.
— Foste preso? — Perguntou San Li, curiosa.
O homem abanou a cabeça:
— Sua Majestade libertou todos os que tinham sido injustamente presos. Desde que pendurou a caligrafia de Li Na, tornou-se um homem diferente.
Quando o criado se foi, Li Na chamou a sua aluna.
— San Li, queres aprender o signo da verdade?
— Sim, quero! — Respondeu a menina, com entusiasmo.
Excitada, olhou para a mão de Li Na que, calmamente, pegava no grande pincel.

Andrea Liebers
Li Na e o Imperador
Toulouse, Milan, 2002
Tradução e adaptação


AS NOSSAS FICHAS DE TRABALHO




Li Na e o Imperador
Um Imperador eu conheci
Era mau e cruel
Uma calígrafa visitou
E pediu-lhe que lhe fizesse
O signo do poder
Ela pensou, pensou...
E por fim o criou
Era tão poderoso o signo
Que até o Imperador chorou.

Poema e ilustração de Flávio Brites



OS NOSSOS IDEOGRAMAS



Também trabalhámos a Matemática de forma divertida, relacionando dezena, centena, milhar e dezena de milhar, com a unidade e entre si.

Também vimos um vídeo da Dança do Dragão que é uma dança típica deste país. Na aula de Educação Física, dançámos no ginásio e foi muito divertido!

3 comentários:

gongas2001 disse...

está um espectáculo

Costa Brites disse...

Este blogue é muito rico e revela um precioso trabalho de educação e instrução.
Parabéns aos meninos, parabéns a quem os ensina e, da nossa parte, um grande abraço de parabéns ao Flávio

dos avós São e José Brites

Hélder disse...

Que bela forma de viajar pelo mundo sem sair da sala. Bem sei que apenas permanecem nesse aí fisicamente porque a senhora do leme ( prof. Virgínia)leva a vossa imaginação a qualquer parte do mundo. Continuem assim...
Prof. Hélder